‘Amores vaporosos’: excesso de opções e falta de tempo desafiam relacionamentos em São Paulo

  • 15/08/2026
(Foto: Reprodução)
Amores vaporosos: muitas opções e falta de tempo desafiam relacionamento em SP A correria, o trânsito, a rotina de trabalho intensa, os aplicativos de relacionamento e a sensação permanente de que existe uma opção melhor. Na maior cidade do país, manter um relacionamento parece ter se tornado um desafio para muita gente. A percepção é compartilhada por profissionais que atendem pacientes na capital paulista e por pessoas solteiras que tentam encontrar um(a) parceiro(a). 👩🏾‍❤️‍👨🏻 E o tema ganha ainda mais destaque nesta semana: 15 de agosto é o Dia do Solteiro, uma data que celebra quem está sem relacionamento e também coloca em evidência as transformações na forma como as pessoas vivem, constroem e encerram seus vínculos afetivos. O novo retrato dos solteiros no Brasil Reprodução/TV Globo Embora não existam estudos específicos que comprovem que os paulistanos têm relacionamentos mais curtos do que moradores de outras cidades, psicanalista, psicólogo, socióloga e solteiros ouvidos pelo g1 relatam que o estilo de vida da capital favorece vínculos mais frágeis e descartáveis. Para o psicanalista, escritor e professor Christian Dunker, titular do Instituto de Psicologia da USP, a identidade paulistana ajuda a explicar parte desse fenômeno. "O trabalho, o sentido de que, se você estiver atrasado, ocupado ou atarefado, faz de você alguém integrado à paisagem da cidade. Essa aceleração acaba se desdobrando também nas nossas relações afetivas." Segundo o especialista, a lógica de que tudo pode ser substituído rapidamente também chega aos relacionamentos. "Estamos aprendendo que aquilo que não funciona, troca. Se não está dando certo, é porque você ainda não encontrou o lugar certo." Na avaliação do psicanalista, a combinação entre longos deslocamentos, menos tempo disponível para convivência, comunicação cada vez mais rápida e espaços públicos reduzidos dificulta conversas longas — justamente aquelas necessárias para resolver conflitos e fortalecer vínculos. Foi a partir dessa observação que Dunker propôs uma atualização da conhecida ideia dos "amores líquidos", popularizada pelo sociólogo Zygmunt Bauman. "Talvez agora a gente tenha evoluído dos amores líquidos para os amores vaporosos. Aqueles que se desfazem no ar. Não dá nem tempo de sentir a liquidez na mão, e eles já desaparecem." Relações com lógica de mercado👨🏻‍🤝‍👨🏾 O psicólogo Renato de Santana Cunha, especialista em Gestalt-Terapia Clínica & Institucional, diz que essa percepção surgiu dentro do seu consultório, ao comparar pacientes de São Paulo com moradores de outras cidades. Dos 20 pacientes que acompanha atualmente, 14 vivem na capital. Segundo ele, em dez desses casos é possível perceber uma tensão constante provocada pela dinâmica paulistana. "A vida profissional e a vida afetiva, em São Paulo, às vezes se confundem", reforça. Segundo ele, a cidade tem uma cultura fortemente voltada para produtividade e desempenho, fazendo com que algumas pessoas passem a analisar relacionamentos quase como oportunidades de trabalho. "Antes as pessoas buscavam estabilidade tanto no emprego quanto nos relacionamentos. Hoje, mesmo estando em uma situação estável, elas continuam procurando algo melhor. Essa lógica também chegou às relações", completa. Para ele, o tempo gasto nos deslocamentos reduz a energia disponível para investir nos vínculos. "Quanto menos tempo livre, menos energia você tem para conversar, resolver conflitos e desenvolver uma relação." Na avaliação do psicólogo, depois da pandemia também surgiu uma sensação coletiva de urgência. "As pessoas vivem uma pulsão de aproveitar o tempo perdido. Soma-se a isso a lógica do consumo rápido e da tecnologia. Se aparece uma primeira 'red flag', muita gente prefere simplesmente pular para outra pessoa, em vez de conversar." Ele ressalta que isso não significa ignorar sinais importantes, mas observa que conflitos pequenos passaram a ser suficientes para encerrar relações: "A gente desaprendeu a conversar". Aplicativos criam expectativa além do que conseguem entregar 📲 Para Christian Dunker, parte da frustração atual também está na expectativa criada em torno dos aplicativos de relacionamento. Segundo ele, muita gente entra nessas plataformas esperando encontrar um namorado ou uma namorada, quando, na prática, elas oferecem apenas um primeiro contato. "O aplicativo não arruma um namorado. Ele arruma um encontro, uma primeira conversa", explica. Na avaliação do psicanalista, o excesso de opções também muda a forma como as pessoas escolhem parceiros. "Os relacionamentos começam como entrevistas de emprego. Você vai eliminando candidatos rapidamente, e isso acelera uma lógica de escolha que é muito ruim para o processo amoroso." Renato Cunha concorda que existe uma sensação permanente de "cardápio". "A internet bombardeia as pessoas com estímulos. Sempre parece existir alguém mais bonito, mais interessante ou com uma carreira melhor. Muitas relações nem chegam a se desenvolver porque já aparece outra possibilidade." A cidade grande também influencia 🚗💔🆘 A socióloga Marília Moschkovich — autora do livro "Corpo, Tesão e Capital" e professora-doutora no Departamento de Sociologia da FFLCH/USP — concorda que São Paulo apresenta características que dificultam a construção de vínculos, mas faz uma ressalva importante: a percepção de que a capital produz relações mais descartáveis depende também de quem está sendo observado. Pessoas LGBTQIAPN+, praticantes da não monogamia ou integrantes de grupos minoritários, por exemplo, se beneficiam da correria das grandes cidades justamente por possibilitar construir relações estáveis que seriam inviáveis em cidades menores. "Para muitas pessoas que vivem formas não hegemônicas de relacionamento, é a diversidade da cidade grande que permite encontrar parceiros e construir vínculos." Ainda assim, ela reconhece que existe uma dificuldade crescente de criar conexões profundas e conclui: "As pessoas estão massacradas pelo trabalho". Moschkovich afirma ainda que a dimensão da capital amplia esse problema. Decisões sobre mobilidade urbana, cultura e ocupação dos espaços públicos acabam influenciando algo que normalmente não é associado à política. "Quando pensamos em relacionamentos, normalmente não pensamos em transporte público. Mas ele está diretamente conectado à possibilidade de encontrar pessoas." A pressão sobre os solteiros👩🏽‍🤝‍👩🏾 A influenciadora Sarah Scaramello Reprodução/Instagram Enquanto especialistas observam mudanças no comportamento, quem está solteiro relata sentir outro tipo de dificuldade: a pressão constante para encontrar alguém. Foi justamente esse tema que levou a atriz e influenciadora Sarah Scaramello a viralizar nas redes sociais. Em um vídeo com mais de 1,1 milhão de visualizações e 8.372 compartilhamentos, ela lista frases frequentemente dirigidas a pessoas solteiras: "Na hora que você parar de procurar, você encontra" "Você é muito seletiva" "Você está indo aos lugares errados" "Agora é hora de focar em você" "Você tem que 'pegar geral' ainda" "Não era para ser" Sarah conta que teve a ideia do vídeo depois de ouvir essas frases repetidamente. "Eu comecei a pensar em tudo o que me falavam. Sempre parecia que o problema era comigo." Ela afirma que viveu a maior parte da vida em São Paulo e percebe uma dificuldade crescente de conhecer pessoas presencialmente. "As pessoas ficam muito no grupo delas. Parece que ninguém faz questão de conhecer alguém novo." Nos aplicativos, ela diz que percebe outro problema: "Eu começo a me perder no próprio aplicativo. Vou dando match e esqueço o objetivo principal". Segundo a influenciadora, as conversas também ficaram previsíveis. "É sempre o mesmo roteiro. Parece um questionário", diz. Mesmo assim, ela acredita que ainda vale insistir nos encontros presenciais. "As redes sociais dão uma sensação de conexão, mas é diferente de olhar para alguém, conversar e se vulnerabilizar. Parece que hoje as pessoas têm medo de demonstrar interesse porque qualquer demonstração de sentimento já é vista como emoção demais." Initial plugin text Manter vínculos virou o desafio 🚨 Para Dunker, a discussão vai além da monogamia ou da não monogamia. Segundo ele, sexo, intimidade e projeto de vida nos dias de hoje deixaram de caminhar necessariamente juntos, criando novas formas de relacionamento — e também novos conflitos. Ele observa que muitas pessoas recorrem à não monogamia como solução para problemas que já existiam antes. "Às vezes o relacionamento não está funcionando, e a resposta passa a ser 'vamos abrir a relação'. Geralmente isso só complica, porque o problema não era a fórmula." Apesar das mudanças, especialistas concordam em um ponto: mais do que encontrar alguém, o maior desafio da vida afetiva na capital paulista passou a ser construir e manter vínculos duradouros em uma cidade que parece estimular justamente o contrário.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/15/amores-vaporosos-excesso-de-opcoes-e-falta-de-tempo-desafiam-relacionamentos-em-sao-paulo.ghtml


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